Moro na Penha à 37 anos , como diz o ditado popular: Nascido e criado no Bairro.
Vivi a infância , adolescência e agora a vida adulta aqui.
A Penha ainda conserva as brincadeiras de rua , o conforto das casas com quintal e as amizades dos vizinhos.
A Penha me deu uma esposa e duas filhas.
Meus melhores amigos , também são a herança dessa vida do subúrbio carioca.
Vi a Guerra e a Paz nos morros do complexo: Fé , Sereno , Cruzeiro , Caracol , Caixa d’Agua....
Como professor tenho o prazer de lecionar na escola que estudei e sentir ainda o clima do bairro que faz parte da minha História.
A Igreja da Penha é um símbolo para Cidade Maravilhosa , mas é o conforto de todo morador que à vê quando se aproxima de casa.
Outro símbolo da Cidade são as Olimpíadas de 2016 e com ela o legado e as transformações do sonho olímpico.
Para nós , moradores da Penha , as obras da Transcarioca representam as mudanças dos “grandes eventos”. No caminho dos atletas , entre as arenas esportivas e o aeroporto, estão as nossas casas, uma parte das nossas vidas.
A Transcarioca vem transformando e mudando tudo por onde passa , saíndo da Barra da Tijuca em direção ao Aeroporto Internacional , tudo em seu caminho vai abaixo; casas , ruas , calçadas , lojas , praças , escolas.....
Se fosse vivo nosso saudoso Pereira Passos estaria de queixo caído com a ousadia do nosso atual prefeito.
E para que toda essa obra vire realidade , a nossa rotina , o nosso dia-dia , as nossas vidas vão sofrendo as mazelas do: Estamos em obras , desculpem o transtorno!
Não pedímos a Copa do Mundo no Brasil, não pedímos as Olímpiadas no Rio e não pedimos um corte no coração da vida do subúrbio.
Esses grandes eventos estão por toda a cidade: Rock n Rio na Cidade do Rock , Reveillon em Copacabana gerando transtornos e mais transtornos para os seus moradores.
Mas o morador da Barra e de Copacabana são , pelo menos , tratados com mais respeito , as mudanças no trânsito são amplamente divulgadas na imprensa. São consultados e ouvidos do melhor para o bairro que escolheram para viver.
O morador de décadas da Penha não tem esse direito. As ruas são fechadas , tem as mãos invertidas , são abertas reversíveis e nada é sinalizado ou comunicado para nós.
Saímos de casa para a rotina diária e somos surpreendidos por alguma novidade desagradável.
Os agentes de trânsito representam o descaso do nosso prefeito conosco. Poucos informam , ninguém orienta. Avisos prévisos , placas , sinalizadores ? Nada.
Mudam as nossas rotinas , mudam as nossas vidas para o objetivo final: O legado e o sonho olímpico.
Legado político dos votos e Legado econômico das construtoras.
E o legado cultural. Uma parte da nossa história , do nosso passado que já não existe mais. Um desabafo no Presente que será esquecido no Futuro. Um Futuro construído no desprazer de quem sofreu e sofre para ver um sonho olímpico virar realidade.
Não importa o pesadelo.
Estamos em obra , desculpem o transtorno.
Um Transtorno Carioca.
Obs. Postagem em homenagem as famílias que tíveram demolidas as suas memórias em troca de um sonho , que ninguém foi chamado para sonhar.
